Há mais de quarenta anos, Vânia Cáus trabalha com fragmentos. Cerâmica, vidro, pedra e metal, partidos e recompostos, formam painéis, esculturas e monumentos que hoje fazem parte da paisagem do Espírito Santo. Entre 3 e 10 de outubro de 2026, essa trajetória chega a Barcelona: a convite da TrencadísBCN, Escola de Mosaico de Barcelona, a artista capixaba representa o Brasil na IV Jornada Internacional de Mosaico Modernista e integra a criação de um painel coletivo internacional em homenagem ao centenário da morte de Antoni Gaudí.
A obra reunirá mosaicistas de diferentes continentes e será instalada em via pública na cidade. A programação inclui ainda conferências técnicas e encontros entre artistas, pesquisadores e especialistas sobre conservação e caminhos contemporâneos do mosaico. A viagem também é um retorno: foi na escola de Barcelona que Vânia aprofundou seus estudos sobre Gaudí e sobre o trencadís, técnica de composição com fragmentos cerâmicos que se tornou marca do modernismo catalão.
Natural de Linhares, Vânia é artista multilinguagens, tem MBA em Curadoria e atua como gestora de exposições. É considerada um dos principais nomes das artes visuais no Espírito Santo, com destaque em escultura, mosaico e arte pública, e sua produção investiga a relação entre matéria, memória e espiritualidade.
Sua obra mais conhecida em Vitória é o Monumento em Homenagem ao Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, com três metros de altura, instalado na Rodovia das Paneleiras, uma reverência a um dos patrimônios imateriais mais importantes do estado. No Centro Histórico da capital, os passarinhos criados coletivamente na Rua Nestor Gomes se tornaram parte do cotidiano de quem circula pela região, e seus corações em pixels já estão espalhados por diferentes lugares do mundo.

A relação com a memória capixaba aparece também no projeto Mosaicos da Ilha, desenvolvido no Museu do Pescador, na Ilha das Caieiras. A iniciativa buscou resgatar a memória da comunidade por meio do artesanato e do mosaico, com oficinas que trabalharam a cultura e a iconografia local em peças utilitárias, como jarros e bandejas, e em obras autorais. Uma nova edição, “Mosaicos da Ilha: Mosaico Contemporâneo”, ocupou o museu entre dezembro de 2023 e março de 2024, com formação de professores e oficinas gratuitas para crianças, adultos e idosos.
Em Santa Teresa, município pioneiro da imigração italiana no país, a artista assina o monumento aos 150 anos da imigração italiana, uma curva em mosaico de 12 metros quadrados e três de altura que reproduz a arte do selo comemorativo com o navio La Sofia, que trouxe ao Espírito Santo os primeiros 388 italianos em 1874. A obra combina vidro cristal e murano e conta com QR Code com áudio e vídeo descritivo para ampliar o acesso de pessoas com deficiência. Na mesma cidade, criou uma Via Sacra com esculturas de cerca de 2,5 metros de altura e aproximadamente uma tonelada cada, que dialogam com a estética de Gaudí.
Recentemente, fez uma residência artística pela Espanha, Itália e França voltada à pesquisa do mosaico em ambientes urbanos. A participação em Barcelona foi contemplada pelo Edital de Circulação e Intercâmbio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES).
Edição completa: Jornal O PIONEIRO 24 de setembro de 2026

