Panorama do Café – Research Apex | apexpartners.com.br · @apex.partners
Consumo de café na China pode adicionar 40 milhões de sacas à demanda global e o Espírito Santo está no centro da oportunidade
Estudo econométrico exclusivo da Apex indica que o avanço da renda na China pode expandir o consumo de café no país em até 10% ao ano. Em paralelo, o Espírito Santo reúne o maior potencial para capturar valor ao longo dessa cadeia.
A Apex Partners divulga a edição do 2º trimestre de 2026 do Panorama do Café, relatório proprietário do time de Research que reúne dados, análises e perspectivas sobre o mercado cafeeiro. O documento chega em um momento de inflexão do setor: depois de dois anos de déficit de oferta que levaram os preços a máximas históricas, a safra 2026/27 aponta para um ciclo de forte recuperação da produção, com superávit global estimado entre 7 e 10 milhões de sacas — o principal fator de curto prazo para o mercado neste ano, apesar dos fatores que seguraram os preços, como os atrasos na safra e incertezas geradas pelo El Niño. Para além da conjuntura, o relatório destaca dois movimentos de fundo, de natureza estrutural e horizonte de longo prazo: o avanço da demanda asiática, puxada pela China, e o amadurecimento do Espírito Santo como polo cafeeiro nacional.
A China como o maior vetor de crescimento da demanda mundial
Segunda commodity mais negociada do mundo e terceira bebida mais consumida do planeta, o café vive uma expansão de consumo que supera o crescimento populacional: cerca de 1,8% ao ano ao longo do século, contra 1,1% da população global. O motor mais relevante desse avanço é a Ásia, cuja participação no consumo mundial saltou de 13% em 2002 para 24% em 2025. No centro do movimento está a China: as importações chinesas de café passaram de aproximadamente 131 mil sacas em 2002 para mais de 6 milhões de sacas em 2025 — um crescimento de 46 vezes, a uma taxa composta de cerca de 18% ao ano por mais de duas décadas.
Para dimensionar o potencial ainda à frente, o time de Research da Apex desenvolveu um modelo econométrico exclusivo (um painel de 50 países entre 2002 e 2024, com efeitos fixos de país e ano, isolando diferenças culturais permanentes e choques globais de preço). O modelo mostra que a elasticidade-renda do café depende do estágio do mercado: em países de renda média, como a China, cada 1% de crescimento da renda per capita gera cerca de 2% de expansão do consumo; em mercados maduros, essa relação cai a praticamente zero, um sinal de saturação. Aplicado à China — com renda projetada para crescer de 4,0% a 4,5% ao ano —, o modelo implica uma expansão do consumo de café entre 4,5% e 10% ao ano.
O paralelo histórico reforça a tese. A Coreia do Sul, até os anos 1990 uma cultura essencialmente ligada ao chá, migrou para o café à medida que sua renda per capita cruzou os limiares de US$ 10 mil, US$ 20 mil e US$ 30 mil. Hoje, os coreanos consomem cerca de 3,9 kg de café por habitante ao ano; os chineses, cerca de 0,26 kg. Se a China alcançar apenas metade do patamar coreano, a demanda adicional chegaria a quase 40 milhões de sacas por ano, o equivalente a cerca de 23% de todo o consumo global atual. A China de 2025, com PIB per capita de cerca de US$ 13,9 mil, está hoje no ponto da curva em que a Coreia acelerou seu consumo e conta com um acelerador que a Coreia não teve: uma expansão relevante das redes de cafeteria locais, que já somam 80 mil pontos de venda, com cases famosos como a Luckin Coffee.
Esse crescimento não beneficia apenas quem exporta diretamente para a Ásia. O mercado de café é global e interligado, os preços se formam nas bolsas internacionais de Nova Iorque e Londres, e uma nova onda de demanda da magnitude chinesa eleva o piso de consumo mundial e dá sustentação estrutural às cotações ao longo do tempo, para todos os países produtores, inclusive para quem não vende ao mercado chinês. Trata-se do mais relevante fenômeno de criação de demanda do setor em décadas, sobre uma base já estruturalmente sólida: o consumo global cresce de forma consistente e nunca registrou queda superior a 3,5% em um único ano, mesmo em crises econômicas severas. Nesse cenário, todos os mercados produtores tendem a se beneficiar, ainda que de forma indireta, de um piso de demanda mais alto. O Espírito Santo, como um dos principais polos cafeeiros do país, colhe esse ganho junto com o restante da oferta brasileira.
Espírito Santo: um polo cafeeiro completo e integrado
O relatório mostra por que o Espírito Santo ocupa uma posição singular no café nacional. O estado não é o maior produtor — Minas Gerais concentra 50% da produção, ante cerca de 27% do ES — nem o principal corredor de exportação, papel de São Paulo, com mais de 70% dos embarques via Porto de Santos. O diferencial capixaba é a integração da cadeia: o ES reúne, simultaneamente, produção agrícola, processamento industrial e atividade exportadora, tornando-se um dos polos mais integrados e autossuficientes da indústria cafeeira do país. É o maior produtor nacional de conilon, o maior polo da indústria de café solúvel e disputa com São Paulo a segunda posição entre os maiores exportadores brasileiros.
A base desse protagonismo foi construída na última década. O estado praticamente dobrou a produtividade por hectare sem ampliar a área cultivada, resultado de irrigação, adensamento, manejo nutricional sofisticado e substituição de lavouras envelhecidas por variedades clonais de alto rendimento. O perfil produtivo é predominantemente familiar: segundo o Incaper, 73% dos produtores capixabas são de base familiar, com propriedades de cerca de 8 hectares em média.
Outro movimento define o momento do estado: a captura de novas etapas da cadeia do café. A cadeia começa no grão e vai até a xícara (ou a cápsula), e a margem não está na origem, mas no processamento e na marca. No mapa exportador, quando se considera apenas o grão verde, os líderes são os países produtores; mas na exportação total — incluindo solúvel, torrado e extratos — surgem Alemanha, Suíça e Itália, que não plantam café, mas industrializam e agregam valor. O Espírito Santo, forte no grão, vem avançando passos rumo à indústria, com destaque para o solúvel: as exportações capixabas do segmento superaram US$ 216 milhões em 2025 (alta de 28%). Quanto mais etapas o estado captura, mais valor agrega, sem deixar de ser um grande produtor de café.
Linhares e o Agrossistema Capixaba
Esse avanço vem acompanhado de um ciclo inédito de investimentos. Linhares, no norte do estado, consolidou-se como o principal hub logístico e industrial da cafeicultura capixaba, com um cluster agroindustrial que concentra cerca de R$ 4 bilhões em investimentos previstos até 2028. Entre as unidades recém-inauguradas estão uma fábrica de café solúvel em Linhares (R$ 1 bilhão, 300 empregos) e uma fábrica de café descafeinado em Sooretama (R$ 160 milhões, 400 mil sacas/ano).
A conexão entre os dois eixos é direta: o conilon capixaba é a matéria-prima preferencial do café solúvel industrializado, justamente o produto que domina os mercados emergentes asiáticos em formação de hábito de consumo. O crescimento estrutural da demanda na China aponta para onde o Espírito Santo já está investindo.


